domingo, 3 de abril de 2022

Doria e Leite vão a campo em campanha diante de crise tucana

Os dois tucanos renunciaram a seus cargos, conforme exige a lei eleitoral 

Foto: Reprodução/Divulgação

Depois da recente turbulência, o PSDB terá nos próximos dias dois presidenciáveis em campo –João Doria (SP), pré-candidato oficial e vencedor das prévias, e Eduardo Leite (RS), que, apesar de perdedor da disputa interna, declarou-se apto e tem apoio de parte da sigla. 

Após um vaivém de decisões sobre a renúncia ao cargo de governador e a candidatura presidencial, Doria deixou o Palácio dos Bandeirantes na última quinta-feira (31). No dia seguinte à tarde, já deu seu primeiro expediente no comitê eleitoral, no bairro Jardim América, região nobre da capital paulista. 

O agora ex-governador paulista planeja iniciar suas viagens durante a semana, começando pela Bahia. Até agora, o tucano tem uma série de reuniões de planejamento de equipe. 

Já Leite, que saiu do Governo do Rio Grande do Sul também na quinta-feira, deve desembarcar em Brasília para iniciar sua articulação política. Ele terá reunião com o grupo que o apoiou nas prévias e vai buscar integrantes de MDB, União Brasil e Cidadania. 

O gaúcho também se encontrou na manhã deste sábado (2) com Sergio Moro (União Brasil), que chegou a abrir mão da sua candidatura presidencial na quinta, mas voltou a flertar com a possibilidade nesta sexta-feira (1º). 

Leite quer rodar o país e está mapeando os estados onde teve apoio majoritário nas prévias e onde tem políticos aliados. A brecha para as viagens é a intenção de convencer jovens de todos os lugares a tirarem seus títulos. 

Os dois tucanos renunciaram a seus cargos, conforme exige a lei eleitoral, com o objetivo de estarem liberados para a pré-campanha. 

A renúncia de Doria, porém, se tornou uma novela que esteve a ponto de implodir o partido.  

Antes da reviravolta que teve início na noite de quarta (30), havia um questionamento no PSDB a respeito da atitude de Leite, que deu entrevista na segunda (28) se lançando candidato e indicando a proposta de virar a mesa das prévias. O gaúcho foi alvo de críticas e, sobretudo na opinião de tucanos ligados a Doria, teve atitude golpista. O paulista disse ter cogitado desistir para frear a sabotagem de Leite. 

Mas, após a hesitação de Doria, que também colocou em risco a candidatura de seu vice Rodrigo Garcia (PSDB), atual governador, e alianças estaduais, o peso dos questionamentos internos se voltou contra o paulista. 

Ele disse ainda que a escolha de Doria como candidato está submetida não ao PSDB, mas à coligação que envolve também Cidadania, MDB, União Brasil e talvez mais partidos. "A candidatura do PSDB está contida num acordo maior", afirmou. 

Para salvar a candidatura de Rodrigo –o PSDB considera vital a manutenção do poder em São Paulo–, Araújo divulgou uma carta em que reafirma a validade das prévias e diz que Doria é o único pré-candidato do partido. 

Com o documento, Doria retomou o plano de renunciar. A sua saída do governo era considerada necessária no entorno de Rodrigo, que se preocupa em blindar o governador da rejeição de seu antecessor. 

O episódio irritou tanto dirigentes paulistas da União Brasil que, mesmo após Doria recuar da ideia de permanecer do cargo, o partido convidou Rodrigo para disputar o governo pela legenda. 

Os tucanos perderam ainda seu candidato ao Senado, o apresentador José Luiz Datena, que trocou a União Brasil pelo PSC, da aliança de Tarcísio de Freitas (Republicanos), apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro.  Datena criticou duramente a atitude de Doria. 

Agora, cresce a chance de a campanha de Doria não ter a presença de Rodrigo e, consequentemente, o empurrão da máquina pública estadual. Aliados de Doria, por sua vez, exaltam o que dizem ter sido uma jogada do tucano. O próprio ex-governador chegou a afirmar que sua ameaça de desistência, que provocou briga com Rodrigo, fora uma estratégia –o que piorou sua situação no PSDB. 

A equipe de Doria afirma que o episódio deixou o tucano no centro das atenções e diz contabilizar mais reações positivas que negativas nas redes –apesar de todas as críticas no meio político. No discurso desse grupo, a carta era um xeque-mate nos ímpetos golpistas de Leite. 

Do outro lado, tucanos minimizam a carta, afirmam que Leite não mudará sua estratégia e apontam que Doria demonstrou a fragilidade de sua candidatura ao hesitar. Mesmo pessoas próximas ao ex-governador admitem que não houve um blefe pensado, mas sim uma indecisão genuína. 

Agora com o bloco na rua, tanto Doria quanto Leite esperam crescer nas pesquisas e serem escolhidos candidatos pela união dos partidos da terceira via. 

Doria ainda não tem agenda montada na Bahia, mas deve visitar a cidade de seu pai, Rio de Contas, na Chapada Diamantina. 

Um dos principais líderes da União Brasil, o baiano ACM Neto, porém, já afirmou à revista Veja que Leite será "peça importante na construção de um projeto para o futuro do Brasil". Em seu último evento no cargo, Doria usou a estrutura do Palácio dos Bandeirantes para realizar uma espécie de comício, com bateria de escola de samba, papel picado e um vídeo exaltando os feitos do governo. 

O vídeo e o discurso do tucano deram o tom do que será a campanha de Doria, baseada em suas realizações e na fama de trabalhador. Ele citará como atuou para salvar vidas na pandemia da Covid, mas ressaltando que em sua administração o estado cresceu mais do que outras regiões do país. 

A argumentação é uma vacina contra ataques bolsonaristas, que acusam Doria de quebrar pequenos comércios ao ordenar o fechamento dos estabelecimentos como medida de isolamento social. Além da atuação na pandemia, a limpeza do rio Pinheiros deverá ter papel de destaque. A promessa, bastante desacreditada no começo da gestão acabou gerando resultados. Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV (Fundação Getulio Vargas), Doria terá dificuldades em reverter em poucos meses cisões que ele criou ao longo de toda sua carreira política. "Quem entra na política pela via da discórdia dificilmente vai construir consenso", afirmou. 

Dessa maneira, é improvável que o périplo do tucano pelos estados o transforme num consenso no partido, com palanques regionais. 

Teixeira afirma que o PSDB normalmente tinha disputas acirradas pelo posto de candidato presidencial, com nomes como Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves. No entanto, havia outros políticos de estatura e com força política que acabavam mediando essa situação. 

Já Leite, avalia o cientista político, foi lançado mais para conter Doria do que por seu projeto presidencial e poderia até concorrer a outros cargos. No entanto, se conseguisse se firmar devido ao vazio de líderes, teria maior possibilidade de firmar alianças.  (Folhapress) 


 

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